Mês: 4/2008
Maturana propõe gestão empresarial pautada pelas emoções

"O que verdadeiramente desejamos de nossas empresas? Se não estou bem emocionalmente e fisicamente com o que faço em meu trabalho, não existe gestão de excelência. Com reflexões e afirmações como essas, o médico e biólogo chileno Humberto Maturana cativou a atenção de, aproximadamente, 300 empresários e profissionais durante sua palestra.
Quem esperava ouvir soluções ou fórmulas prontas de Maturana e de sua equipe, formada pelos antropólogos Ximena Paz Dávila Yáñez e Ignácio Muñoz Cristi, surpreendeu-se. Em vez de contextualizações empresariais ou casos do mundo corporativo, os especialistas, que se apresentaram juntos no evento, optaram por falar de emoções e de relações humanas. Abordaram o mundo empresarial como integrante de um outro grande sistema - o cosmos - em vez de um universo à parte. E deu certo. A platéia ouviu atenta às provocações e às chamadas para reflexões da equipe do Instituto Matríztico. Os primeiros resultados foram notados na atividade posterior, em que os palestrantes interagiram com os convidados nos chamados Círculos Reflexivos.
De constituição física pequena e vestimenta informal, esse especialista de 79 anos, quase 30 livros escritos, centenas de artigos e viagens pelo mundo, preocupou-se em agradecer longamente a seus interlocutores por permitirem que ele transmitisse a sua mensagem. Por ouvi-lo e observá-lo. A ênfase foi justificada no decorrer da palestra, quando os especialistas mostraram as artes de ouvir e de observar como as estratégias mais preciosas das relações corporativas.
Pessoas pelas pessoas
Diferentemente de muitos estudiosos do mundo corporativo, Maturana chamou a atenção de todos para a melhoria das relações humanas com o intuito de aumentar a produtividade das empresas. Para os três especialistas, no entanto, elas devem ser cultivadas simplesmente por serem relações humanas, sem objetivos secundários. A racionalidade com que diversas linhas de produção são conduzidas, por exemplo, são consideradas absurdas pelos palestrantes.
Segundo os três dirigentes do Instituto Matríztico no Chile, as emoções são as molas do universo. E por estar nele inserido, o mundo corporativo também deve ser movido dessa maneira: por meio das emoções. Convidados a falar sobre Pensamento Sistêmico, tema principal do evento, Maturana, Ximena e Cristi foram além. Para eles, sistêmico é apenas algo diferente do tradicional esquema linear de causa e efeito. É a formação de um sistema de relações. O que os estudiosos defendem é um conceito ainda mais ousado: o sistêmico-sistêmico. Essa teoria sustenta que a estrutura do sistema é só um elemento, um formato. O que vale é a dinâmica nele inserida. Exemplificaram o conceito sistêmico-sistêmico como uma malha o sistema em que se coloca um pequeno peso em algum de seus pontos. De forma sistêmica-sistêmica, o deslocamento desse peso vai alterando continuamente o formato e a estrutura da malha.
Maturana e os dois antropólogos levaram ao âmbito das relações humanas diversos temas que vêm de encontro ao que pregam algumas linhas de gestão. Como exemplos podemos citar visão de futuro e liderança. Para eles, o futuro é algo que não existe, por isso não pode ser planejado. Olhar para um tempo que ainda não chegou é esquecer de viver o presente.
E como fica a estratégia empresarial diante dessa afirmação? Pelo exposto, a boa construção do presente levará, automaticamente, a esse futuro de resultados. Sobre liderança, Maturana prega em seus artigos e livros que o modelo atual, mesmo em sua acepção mais liberal, é uma fase transitória. No futuro, será substituído pelo que ele chama de modelo co-inspirativo, baseado nas responsabilidades individuais. Segundo os dirigentes do Instituto Matríztico, as conversas nas empresas costumam ser pautadas pela obediência, mais do que pelo ouvir. E obediência, para eles, é sinal de insegurança e leva a ressentimentos.
Em vez de conclusões e propostas, Maturana e seus parceiros deixaram perguntas e inquietações. E com isso cumpriram seu propósito: levar à reflexão para que, na seqüência, o grupo pudesse colocar esses conceitos em ação durante os Círculos Reflexivos.
Karen Gimenez
Pessoas e sustentabilidade são inquietações dos empresários
Brasal e Itaú Private Bank enfatizam Pessoas em sua gestão
Pensamento Sistêmico é analisado pela academia
Pensamento Sistêmico abre o segundo dia de debates
Pensamento sistêmico
[Voltar]